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Enchentes no RS

O CONTEXTO CLIMATOLÓGICO E GEOGRÁFICO DAS ENCHENTES DE 2024 NO RIO GRANDE DO SUL

Murilo de Carvalho Góes (CREA RS 180073 - blogpanoramalavrense@gmail.com)

INTRODUÇÃO

As mudanças climáticas do século XXI vêm influenciando a vida do ser humano de forma cada vez mais significativa. Há muito tempo, já se avisam as consequências das alterações nas condições meteorológicas e do clima em todo o mundo, reflexos de uma desatenção da sociedade e dos governantes perante a preservação ambiental e a regulação e manutenção consciente dos recursos naturais da Terra. O resultado do desinteresse e de falta de planejamento e políticas públicas, bem como a falta de reflexão do ser humano para com o espaço em que vive, gera grandes e até então inimagináveis desastres naturais em regiões até então consideradas pouco propensas à sua existência, como no caso do Estado do Rio Grande do Sul, no extremo Sul do Brasil, que passa, em 2024, por um momento insólito e atípico, influenciando toda a população e economia, deixando estragos físicos, materiais e desgastes de cunho mental aos gaúchos.

Volumes muito extremos de chuva provocaram enchentes, alagamentos, deslizamentos de terra, interrupção de estradas, falta de água, energia elétrica e telefonia, destruição quase total de algumas cidades, prejuízos econômicos e um grande número de desabrigados, mais de 100 mortos (dado de 10 de maio de 2024), entre outros estragos, constituindo-se na maior tragédia natural registrada da história do Brasil, afetando todas as regiões do Rio Grande do Sul.

O presente trabalho tem o objetivo de descrever o entendimento deste fenômeno, através da Geografia e do contexto da Climatologia Geográfica, suas consequências e reflexões para após às enchentes, no qual o começo ainda é, no momento de publicação deste artigo, uma incógnita, uma vez que elas persistem.

Eixo Temático: Climatologia Geográfica.

OBJETIVO: Descrever, do ponto de vista geográfico, as enchentes e fortes chuvas ocorridas no Rio Grande do Sul, entre abril e maio de 2024.

DESENVOLVIMENTO

Este histórico fenômeno climático ocorrido no Rio Grande do Sul e no Brasil entre abril e maio de 2024 é consequência de um bloqueio atmosférico, provocado causado por um sistema de alta pressão atmosférica, que estacionou no Centro-Sul do Brasil, que impediu as precipitações nos estados do Sudeste e Centro-Oeste do Brasil (altas temperaturas – cinco a dez graus Celsius - acima da média para o outono foram registradas no Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte e Cuiabá). Com isso, houve um bloqueio atmosférico, aliado à chegada de uma frente fria, que concentrou as chuvas no Estado Gaúcho. A partir de 28 de abril, a Defesa Civil do Rio Grande do Sul emitiu o Aviso Meteorológico 254 – atualizado dois dias depois –, que alertava para os seguintes acontecimentos:

Risco para transtornos por conta dos temporais isolados e chuvas pontualmente intensas, ocasionando rápidas elevações dos níveis com extravasamento da calha em arroios, córregos, pequenos riachos e regiões ribeirinhas, assim como lenta elevação dos rios principais podendo atingir cota de inundação, além de alagamentos pontuais nos perímetros urbanos (RIO GRANDE DO SUL, 2024).

Confirmadas as previsões, desde então, o Rio Grande do Sul sofre uma catástrofe natural de grandes proporções. Entre 27 de abril e 5 de maio, foram dias de incessantes chuvas, gerando as consequências e inundações vividas.

Em 2023, já ocorriam dois episódios semelhantes, de menos magnitude, mas igualmente destrutivos, em setembro e novembro, que prejudicaram regiões como os vales dos rios Taquari e Pardo.

Desde 2013, relatórios científicos já correlacionam correlacionaram as frequentes enchentes no Sul do Brasil aos impactos do aquecimento global no país, já repercutindo na imprensa internacional. No entanto, há ainda um certo descaso de alguns atores do poder público, muitos deles ligados a políticas neoliberais que promovem desregulação de legislações ambientais, além de um despreparo de um planejamento para o futuro ambiental do país e do mundo e uma ausência de políticas públicas para mitigação e gradual redução dos efeitos das mudanças climáticas.

Já se percebem os efeitos deste, falando a grosso modo, desinteresse dos governantes. A população passa pelas consequências deste período dificil e atípico. Vive-se a maior tragédia climática da história do Brasil. Até a publicação deste texto, não se sabe quando suas consequências, que serão citadas a seguir, vão ser amenizadas.

Consequências das fortes chuvas

a)    Muitos municípios apresentaram mais de 600 mm de chuva em apenas 96 horas;

b)    Quase a totalidade dos municípios gaúchos foi afetada pelas enchentes, de alguma forma;

c)    Milhares de desabrigados estão em ginásios, escolas, universidades, igrejas e outras instituições, muitos deles perdendo praticamente todos os seus pertences;

d)    Uma grande mobilização de solidariedade aos gaúchos juntou clubes de futebol, artistas, influenciadores digitais e cidadãos de todo o Brasil e várias partes do mundo; vários estados enviam donativos para o Rio Grande do Sul;

e)    Extensa cobertura de jornais impressos e on-line, emissoras de rádio e TV sobre a tragédia, de meios de comunicação regionais, nacionais e até internacionais;

f)     Fatos, como o resgate do cavalo Caramelo, que emocionou o Brasil, por estar em posição estática por várias horas sobre um telhado em uma região inundada;

g)    Estradas federais e estaduais interrompidas em várias regiões do estado, assim como a paralisação da Linha do Trensurb, do Aeroporto Salgado Filho (que ficará fechado até, no mínimo, dia 30 de maio de 2024) e das vias de ligação de Porto Alegre com a Região Metropolitana e grande parte do Estado, submersas por conta dos grandes volumes de chuva;

h)    Centro Histórico de Porto Alegre, Quatro Distrito de Porto Alegre, Orla do Guaíba, Menino Deus, Cidade Baixa, Sarandi e Rubem Berta, Farrapos e Humaitá, Canoas, Esteio, Vale dos Sinos, Lajeado, Cruzeiro do Sul, Vale do Taquari, Vale do Rio Pardo, Eldorado do Sul, Pelotas, Rio Grande, Santa Maria, Caxias do Sul, Cachoeira do Sul e Norte do Estado foram as regiões mais afetadas inundações. Várias cidades encontram-se submersas;

i)     Dupla Gre-Nal, Juventude e demais clubes gaúchos tiveram suas partidas oficiais adiadas em diversas competições. Os estádios de Grêmio e Internacional estão alagados;

j)     Infelizmente, as Fake News atrapalham o processo de ajuda aos necessitados, provocando pânico e desavenças na mídia, no mundo real e nas redes sociais. Há episódios que merecem nosso repúdio, como casos de tiroteios, saques, assaltos, aumentos de preços, falta de empatia e brigas desnecessárias, sendo necessária a presença de policiamento ostensivo e da Força Nacional em algumas regiões. No entanto, a solidariedade prevalece predominante neste momento delicado;

k)    Ainda não há uma previsão garantida do fim das enchentes. A Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) publicou prognósticos em que, pelo menos até o dia 20 de maio, não há possiblidade de o Lago Guaíba retornar à cota de alerta de inundação (de 2,55 m).

l)     O recorde de inundação do Guaíba foi na noite de 6 de maio, 5,33 m, segundo a UFRGS. Este é apenas um parâmetro para medir a dimensão das inundações;

m)  Em 10 de maio de 2023, voltou a chover forte em várias regiões do Rio Grande do Sul, após alguns dias de sol (entre sábado, 4, e quinta-feira, 9). Está já é a maior enchente da história do Brasil – pelo que se tem de notícia;

n)    Os prejuízos econômicos já são mensurados. Agropecuária, indústria e turismo deverão ter grandes impactos negativos no Rio Grande do Sul por tempo ainda não definido, assim como os sistemas de infraestrutura. Será um árduo trabalho de recuperação do Rio Grande do Sul, em praticamente toda a sociedade;

o)    O Governo Estadual e diversas entidades disponibilizaram canais de doações e ações em prol das vítimas das enchentes.

FONTE: https://twitter.com/temposleopoldo/status/1788975014957474239, acesso em: 10 maio 2024.

Números parciais das enchentes[1]

  • Municípios afetados: 435

  • Pessoas em abrigos: 69.617

  • Desalojados: 337.116

  • Afetados: 1.916.070

  • Feridos: 756

  • Desaparecidos: 146

  • Óbitos confirmados: 116[2]

  • Óbitos em investigação: 1

  • Pessoas resgatadas: 70.863

  • Animais resgatados: 9.984

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Este trabalho apresentou um evento climático que, na verdade, está em andamento e não tem data para seu término. Mais da metade do Rio Grande do Sul pode apresentar mais de 250 mm de chuva entre os dias 10 e 13 de maio, sucedida de uma onda de frio.

O momento agora é de realizar a solidariedade e refletir a participação da sociedade e governantes para o planejamento de políticas públicas para mitigar as mudanças climáticas em curso no Rio Grande do Sul e no Brasil.

Sabemos que a reconstrução vai ser longa, mas que o momento vai ser superado. A mobilização de todos é necessária. Também é importante a mobilização em relação a comunidades quilombolas, de povos indígenas e comunidades de vulnerabilidade social.

Ressalta-se, ainda, que o presente texto está sujeito a alterações sem aviso prévio, devido à dinâmica do tempo e novos fatos e informações a surgirem sobre o tema.

REFERÊNCIAS

AJUDA RIO GRANDE. Porto Alegre: RBS TV, 7 maio 2024. Programa de TV especial sobre as enchentes no Rio Grande do Sul.

LEOPOLDO, @temposleopoldo. Saiu há pouco a previsão do IPH sobre o nível do Guaíba nos próximos dias. São Leopoldo, 10 de maio de 2024, 13h50min. Disponível em: https://twitter.com/temposleopoldo/status/1788975014957474239. Acesso em: 10 maio. 2024.

NASA - National Aeronautics and Space Administration. Disponível em https://worldview.earthdata.nasa.gov/. Acesso em: 10 maio. 2024.

RIO GRANDE DO SUL. Defesa Civil atualiza balanço das enchentes no RS. Defesa Civil, 10 maio. 2024. Disponível em: https://estado.rs.gov.br/defesa-civil-atualiza-balanco-das-enchentes-no-rs-10-5-9h. Acesso em: 10 maio. 2024.

RIO GRANDE DO SUL. Aviso Hidrometeorológico – 254_Atualização. Chuva pontualmente intensa e temporais isolados sobre o RS. Secretaria Estadual do Meio Ambiente, 28 abr. 2024. Disponível em https://www.defesacivil.rs.gov.br/upload/arquivos/202404/29202820-aviso-254-atualizacao.pdf. Acesso em: 10 maio. 2024.

Publicação: 10 de maio de 2024, 19h.
Sujeito a atualizações a qualquer momento.

NOTAS

[1] Informações das 9h de 10 de maio de 2024. Disponível em: https://estado.rs.gov.br/defesa-civil-atualiza-balanco-das-enchentes-no-rs-10-5-9h, acesso em 10 maio 2024.

[2] Informação atualizada no final da tarde de 10 de maio de 2024.